LÍDERES LIDERADOS (ou autogestão)

 

“Muito se tem falado sobre liderança...”

 

Quantas vezes encontramos esta passagem em livros, artigos científicos ou em revistas especializadas quando o tema é liderança? Pois bem, muitas!

Na tentativa de quebrar esse costume, explorarei o tema liderança sob o aspecto sistêmico, considerando todo liderado um líder, ou melhor, da conveniência de “ser líder”.

A princípio, sobre a estrutura conceitual de líder vamos considerar algumas qualidades: ser confiável; ser exemplar; possuir certa notoriedade; dominar o processo de comunicação, com algumas especificidades como habilidade de negociação, capacidade de dar e receber feedback, saber ouvir; prezar pela gestão participativa; compartilhar informações etc.

Em geral, todos os líderes possuem essas qualidades, em maior ou menor grau. Muitos são elogiados pela sua capacidade de nos ouvir e dar bons conselhos, outros pelo domínio de certa ciência e sua capacidade de transmitir e disseminar seus conhecimentos.

Ok, eu falei que iria apresentar o tema sob a ótica dos liderados, não foi? Pois é o que estou fazendo desde o início! Perceba que estou falando do líder, ora, todo liderado também é líder! Como assim? Explicarei através da seguinte estória:

“Joana, mãe de dois filhos e esposa de Arnaldo. Ela trabalha 30 horas como servidora pública do Distrito Federal. Atualmente, faz um curso de MBA à noite.”

Me diga, com base nessas informações se é possível deduzir algo sobre a capacidade de liderança de Joana. Não? Então veja com mais detalhes.

“Joana, há oito anos, trabalha na parte da manhã e não possui cargo de chefia, pois optou por não fazer 40 horas semanais, apesar de já ter sido convidada a assumir a chefia do seu setor. Ela passa as tardes com seus filhos, de 14 e 16 anos, os quais foram muito bem criados, e que respeitam, admiram e amam seus pais. No curso de MBA que faz à noite é representante da turma, não porque evocou tal função, mas porque a turma a indicou.”

Vamos lá, e agora, percebe algum traço de liderança em Joana? Veja, não é porque não é chefe do seu setor que não foi reconhecida como pessoa capacitada para ocupar tal função. Sua capacidade de educar os filhos é, com certeza, marcada pela sua capacidade de liderar equipes, resolver conflitos, de saber comunicar-se bem. E para finalizar, é representante da turma do MBA que participa. Turma essa, que demonstrou confiança na pessoa de Joana ao indicá-la como sua porta-voz.

O que quero dizer com isso é que assumimos papéis de líder durante toda a nossa vida e não somente quando estamos de posse de determinada função de confiança em alguma empresa. Não precisamos ser supervisores, gerentes, diretores ou presidentes para sermos líderes. Disso já até sabíamos, pois líder não é necessariamente aquele formalmente reconhecido pela organização! Estou me referindo que nós liderados somos líderes contextuais, sempre, mesmo não nos dando conta, no dia-a-dia.

Por fim e em verdade, entramos inconscientemente em um ciclo vicioso, no bom sentido, nos papéis de líder e liderado e estes se confundem, muitas vezes, no mesmo processo. Daí o porquê de alguns autores falarem em autogestão, de equipes autogerenciáveis. Não que essa nova formatação exclua a pessoa do chefe, pois esse vai existir, mas apenas como, a exemplo da Joana, um representante de turma.